A QUE PONTO CHEGOU O DESCASO

Alguns trabalhadores estão sendo submetidos a um ambiente de trabalho insalubre durante o exercício de suas funções, em razão de problemas estruturais nas dependências do CRUSP.

Esses trabalhadores atuam em diversos espaços que apresentam vazamentos e gotejamento de água suja (esgoto), que cai literalmente sobre suas cabeças, equipamentos e materiais de trabalho. Além disso, há partes do teto despencando, oferecendo risco iminente, bem como a presença de mofo e umidade, corroborando as denúncias feitas recentemente pelos alunos que residem na Moradia Estudantil.

As péssimas condições estruturais estendem-se em diferentes espaços, destacando ainda, refeitório e vestiário com rachaduras no bloco B, sem falar na situação dos aptos da Moradia Estudantil da USP, isso em se falando da melhor universidade da América Latina.

Trata-se de uma situação de extremo absurdo e desrespeito, visto que atinge todos os trabalhadores, inclusive das empresas terceirizadas.

Servidores técnicos da USP são obrigados a permanecer durante toda a jornada de trabalho com ventiladores ligados para amenizar o mau cheiro de esgoto e a distribuir baldes e pano de chão pelos ambientes para conter os vazamentos.

Ressaltamos que, entre os problemas estruturais, está também a precariedade na conservação e manutenção dos elevadores, que permanecem grande parte do tempo sem funcionamento. Essa situação afeta prestadores de serviços, moradores, servidores técnico-administrativos e trabalhadores das empresas terceirizadas, dificultando o acesso aos prédios, inclusive em situações de urgência.

No caso dos trabalhadores da empresa terceirizada de limpeza, a situação torna-se ainda mais grave em razão das condições de trabalho. Além do excesso de atribuições, alguns profissionais assumem as tarefas dos colegas que estão em período de férias, sobem e descem várias vezes dos prédios, e o trabalhador responsável pela retirada do lixo de todos os andares executa esta tarefa em vários momentos pelas escadas, simplesmente porque os elevadores permanecem constantemente com defeito, além disso, empurra sozinho o carrinho lotado para levar tudo para as caçambas de descarte próximo a Caldeira do bloco G.

Essa realidade transforma a rotina desses trabalhadores em uma verdadeira maratona diária, resultando em sobrecarga de trabalho e adoecimento físico e mental.

A impressão é de que alunos, servidores técnico-administrativos da USP e trabalhadores das empresas terceirizadas do CRUSP são simplesmente invisíveis, uma vez que muitos desses problemas persistem há anos, sem que as medidas adotadas sejam suficientes diante da gravidade já constatada por diferentes profissionais e setores da universidade.

O fato é que todos, sem exceção, dependem de infraestrutura adequada e de manutenção permanente para desenvolver suas atividades, sejam elas laborais, acadêmicas ou pessoais. É direito de todos exercer suas atividades em ambientes seguros, que não ofereçam riscos à integridade física e mental, garantindo-se os direitos fundamentais, sociais e trabalhistas.

Portanto, além de denunciar as péssimas condições de trabalho e de moradia estudantil no CRUSP, é necessário enfrentar essa realidade para evidenciar a ausência de políticas efetivas capazes de solucionar esses e tantos outros problemas que comprometem a saúde, a segurança e a qualidade de vida de trabalhadores e moradores, gerando consequências cada vez mais graves e ampliando o descaso, a negligência e o abandono.

Infelizmente, o que estamos presenciando na USP reforça o alerta de que essas situações decorrem da falta de comunicação institucional, da insuficiência de servidores técnico-administrativos e da ausência de contratação de mão de obra especializada para manutenção predial, especialmente nos contratos terceirizados, e para além disso, falta de vontade política.

Também se evidencia a necessidade urgente de realocar as pessoas que trabalham ou permanecem em ambientes insalubres e com risco iminente até que todos os problemas estruturais sejam solucionados.

Temos clareza, contudo, de que a precariedade da infraestrutura e o constante mau funcionamento dos elevadores representam apenas a ponta do iceberg. Há muitos outros problemas que precisam ser discutidos, corrigidos ou enfrentados.

Nesse sentido, além de adotar uma postura firme para denunciar e cobrar providências dos responsáveis, é necessário exigir melhores condições de moradia e de trabalho, ampliar esse debate junto às categorias envolvidas e fortalecer a organização coletiva diante do avanço da precarização, da terceirização e da retirada de direitos estudantis, sociais e trabalhistas.

Mesmo reconhecendo a complexidade dessas questões, reafirmamos que trabalhadores e moradores do CRUSP não podem ser responsabilizados por essa situação. Não se justifica a alegação de falta de recursos por parte da unidade ou da Reitoria para solucionar esses e outros problemas estruturais, especialmente considerando que a universidade dispõe de recursos financeiros que podem ser destinados à realização de reparos, manutenção, contratação de servidores técnico-administrativos, ampliação da prestação de serviços e implementação de projetos capazes de enfrentar demandas urgentes e garantir ambientes saudáveis e seguros.

Também não podemos permitir que a responsabilidade pela falta de manutenção e pelas inadequações estruturais seja transferida aos prestadores de serviços terceirizados ou aos servidores técnico-administrativos da USP. Esses problemas refletem um processo de desmonte que se arrasta há muitos anos, marcado pelo sucateamento dos espaços de trabalho e de moradia, pelo avanço da terceirização e pela retirada de direitos.

Por fim, entendemos que esse cenário evidencia um modelo de gestão que aprofunda desigualdades sociais e compromete a adequada aplicação dos recursos públicos na manutenção dos espaços, na valorização dos trabalhadores e na melhoria das condições de moradia estudantil, fundamentais para assegurar dignidade, permanência e qualidade de vida aos estudantes que dependem desse auxílio.