Desde segunda-feira os trabalhadores efetivos e terceirizados do Restaurante Central, num exemplo de solidariedade de classe, cruzaram os braços em resposta à violência cotidiana imposta pela empresa terceirizada J. Leal, com a conivência da Reitoria da USP. A paralisação se deu contra uma nova ofensiva patronal que escancara o que é a terceirização na universidade pública: precarização brutal, assédio, perseguição, adoecimento e demissões arbitrárias para garantir lucro às custas da saúde dos trabalhadores.

O caso que detonou a mobilização é revoltante. Uma trabalhadora foi demitida por justa causa porque precisou cuidar do filho de 10 anos que sofre com asma e bronquite. Outro companheiro teve atestado negado mesmo após teleconsulta, porque a empresa simplesmente decidiu ignorar um documento médico e transformar cuidado com a saúde em falta grave. Não bastasse isso, os trabalhadores denunciam ainda cobranças ilegais de valores de uniformes e EPIs nos holerites, retenção e atraso no envio dos contracheques, corte de cesta básica em caso de falta justificada por mais de dois dias e uma sequência de outras ilegalidades que expressam o desprezo completo da empresa pelos direitos mais elementares da categoria.

Essas medidas não são “excessos” isolados, mas parte de um regime de exploração permanente. Nos bandejões da USP, a falta crônica de pessoal, a sobrecarga de trabalho e a imposição de condições degradantes já adoecem os trabalhadores há anos, ainda mais as mulheres, que ainda carregam a dupla jornada, o cuidado com os filhos e a responsabilidade pela sobrevivência da família. A terceirização agrava tudo isso: reduz salários, aprofunda o assédio e tenta naturalizar como normal o que é, na verdade, uma forma de violência patronal.

A força da paralisação de hoje esteve justamente na unidade entre efetivos e terceirizados. Os trabalhadores efetivos do Restaurante Central votaram parar junto com seus companheiros terceirizados até que as demissões fossem revertidas. Essa decisão é um exemplo para toda a USP, porque rompe a divisão que a Reitoria e as empresas tentam impor para enfraquecer a organização da categoria. Quando a classe trabalhadora se une, a universidade para. Quando a unidade é construída junto aos estudantes reitores e patrões são obrigados a recuarem.

E foi exatamente isso que ocorreu: mesmo às vesperas do feriado e com o restaurante sendo fechado na próxima semana para reformas contando contra os trabalhadores, a luta unificada arrancou uma vitoria parcial com recuo da empresa que queria retirar direitos dos trabalhadores demitidos. As três demissões se mantiveram, mas deixaram de constar como justa causa e com pagamento das verbas rescisórias e direitos. Ou seja, a pressão do movimento impediu que a empresa deixasse uma marca vergonhosa na carteira de trabalho dessas trabalhadoras e trabalhadores e não pagasse os direitos. Trata-se de uma vitória parcial, mas concreta, que mostra que a luta organizada pode derrotar ataques imediatos e abrir caminho para novas resistências.

Ainda assim, é preciso dizer com toda clareza: a responsabilidade não é apenas da J. Leal. A USP é cúmplice direta desse processo, porque sustenta e amplia a terceirização como política institucional. A Reitoria fala em inclusão e pertencimento, mas na prática mantém um sistema que produz mães sem emprego, trabalhadores adoecidos e uma rotina de abusos dentro da universidade pública.

Por isso, a luta do Bandejão Central deve inspirar toda a USP. Cada trabalhador efetivo precisa entender que defender os terceirizados é defender os próprios direitos, porque é a mesma lógica de ataque que prepara novas perdas para toda a categoria. É necessário lutar contra a terceirização, por igual salário e igual direito, pelo fim da escala 6×1, pelo direito ao BUSP para todos os terceirizados e pela efetivação sem concurso de todos os trabalhadores que hoje sustentam a universidade com seu trabalho.