Nós do Sintusp – Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo – queremos dar as boas-vindas aos ingressantes de 2026 que furaram o filtro social do vestibular nesta que é uma das mais importantes e também uma das mais elitistas universidades da América Latina.
Nos dirigimos aos estudantes da universidade, com quem compartilhamos o mesmo local de estudo e trabalho, porque entendemos que é preciso defender a universidade pública contra uma lógica privatista de ensino e pesquisa que, na USP, se expressa em cortes e insuficiência de investimentos em permanência estudantil, o que dificulta que estudantes de baixa renda se mantenham estudando, na precarização do trabalho, com congelamento de contratações de funcionários técnico‑administrativos que resultam em estágios mal remunerados para substituir funcionários, precarizando a própria permanência estudantil, além do avanço da terceirização e da falta de professores, com contratações precárias que limitam a pesquisa e a orientação. Somos nós, trabalhadores da USP, que garantimos que as salas de aula estejam prontas, os laboratórios equipados, as bibliotecas organizadas e os campi em pleno funcionamento. Somos parte indissociável da vida universitária, da pesquisa e do ensino não apenas pelo exercício das nossas atribuições, mas porque somos parte da luta em defesa da universidade pública para que esta se coloque verdadeiramente a serviço dos trabalhadores e do povo pobre.
Ao longo dos anos, o Sintusp esteve presente em momentos cruciais da história da USP e do país. Ainda como associação de trabalhadores da USP (ASUSP), fomos parte fundamental da luta que arrancou a autonomia universitária. Com o fim da ditadura, que proibia sindicatos de servidores públicos, fomos o primeiro sindicato do funcionalismo a ser fundado em 28 de outubro de 1988, e até hoje encontramos resquícios desse período na USP, já que no regimento interno da USP, herdeiro do regime militar, o direito de greve e de sindicalização segue formalmente proibido, bem como esse mesmo regimento dá bases à perseguição a estudantes ativistas. Um dos marcos mais significativos da nossa trajetória foi a resistência aos decretos do então governador José Serra, em 2007, que ameaçavam a autonomia universitária e o caráter público da USP: naquela ocasião, o Sintusp, junto com o movimento estudantil, organizou greves, manifestações e ocupações que paralisaram a universidade, garantiram a revogação dos decretos e reafirmaram a força da mobilização unificada entre trabalhadores e estudantes.
Nós do Sintusp sabemos que a defesa das nossas condições de trabalho depende da defesa da universidade pública e dos interesses dos estudantes. É por isso que assumimos o compromisso explícito de estar ao lado das lutas estudantis: em defesa da permanência estudantil, pela ampliação de auxílios e vagas em moradia, pela melhoria das condições de vida no Crusp e nas demais moradias, pela ampliação e reajuste das bolsas, contra cortes e restrições que empurram estudantes trabalhadores para fora da universidade. Nos colocamos como aliados em todas as lutas em defesa da educação pública, gratuita e laica contra a repressão e qualquer tentativa da Reitoria de criminalizar a organização estudantil, as ocupações e os centros acadêmicos e DCE. Para nós, construir uma unidade forte e permanente entre trabalhadores, estudantes e professores, respeitando sempre a autonomia do movimento estudantil, é condição essencial para enfrentar o projeto privatista e garantir o direito de estudar com real permanência, com alimentação, moradia, transporte, saúde e cultura.
Quando falamos em nome dos trabalhadores da USP, nos referimos aos trabalhadores efetivos, mas também aos terceirizados, que hoje ocupam principalmente os postos de trabalho nos restaurantes universitários, na vigilância e controle de acesso e, sobretudo, na higiene e limpeza, onde se concentra a maioria das trabalhadoras terceirizadas – que em geral são mulheres negras. Nossa luta contra a privatização da universidade, da pesquisa e de seus saberes passa por uma luta firme contra a terceirização, para que todos os trabalhadores hoje terceirizados tenham iguais direitos, igual salário e sejam efetivados sem necessidade de concurso, pois já trabalham na USP. A luta contra a terceirização é também uma luta contra o fechamento de postos de trabalho e o avanço de contratos precarizados que, além do vínculo frágil, significam baixos salários, sobrecarga e acidentes de trabalho, alguns fatais.
A terceirização na USP carrega todos os problemas da precarização das relações de trabalho: vulnerabilidade de direitos, sobrecarga, baixos salários, assédios moral e sexual e adoecimentos físicos e mentais. Combater a terceirização e lutar pela efetivação é parte fundamental da luta contra o projeto privatista de universidade que também nega a permanência estudantil, porque um campus com trabalhadores precarizados significa menos serviços, piores condições de vida e mais barreiras para permanecer estudando. Por isso, quando defendemos as trabalhadoras terceirizadas, estamos também defendendo o direito dos estudantes a restaurante aberto, campus limpo, RU funcionando e transporte digno.
Vocês que ingressam neste ano – e muitos que entraram nos anos anteriores – talvez não saibam que antes de existirem os ônibus circulares da SPTrans e o cartão BUSP, os circulares pertenciam à universidade, dirigidos por funcionários da USP, e todos que circulavam pelo campus da capital podiam utilizá‑los, independentemente do tipo de vínculo. Com a mudança arbitrária imposta pela Reitoria, além do fechamento de postos de trabalho, sem novas contratações de motoristas e com a privatização do serviço de transporte, foi imposto um controle de acesso aos circulares por meio do cartão BUSP, limitando o uso a professores, estudantes e funcionários efetivos. Milhares de trabalhadoras terceirizadas ficaram de fora e hoje cruzam o campus a pé para chegar ao local de trabalho; se precisam ir ao banco ou a outro serviço, pagam a tarifa cheia ou vão a pé sob sol e chuva.
Desde 2023, o Sintusp, junto com juristas e intelectuais, impulsiona o Manifesto contra a Terceirização e a Precarização do Trabalho, levando adiante a luta pelo BUSP para as terceirizadas como forma de denunciar a segregação que essas trabalhadoras sofrem na universidade. Como parte dessa mesma batalha, denunciamos também a escala 6×1 que recai principalmente sobre as trabalhadoras terceirizadas e impõe uma jornada exaustiva e cruel. A luta em defesa das trabalhadoras terceirizadas é crucial para combater os projetos de privatização da USP e é uma luta que precisa ser tomada por todos nós – funcionários, estudantes e professores – como parte da defesa da permanência estudantil e do próprio caráter público da universidade.
A luta contra as fundações privadas e a estrutura de poder da USP também é central. As fundações submetem a pesquisa, a cultura e a extensão aos interesses empresariais, desvirtuando o caráter público da universidade e abrindo caminho para convênios e projetos alinhados ao lucro, e não às necessidades da maioria da população. Um exemplo emblemático é a luta para reverter a desvinculação do HRAC (Centrinho – Bauru) e o sucateamento do Hospital Universitário (HU), ataques diretos à saúde pública e à USP enquanto universidade socialmente referenciada. Além disso, a estrutura de poder da USP, centralizada na Reitoria e no Conselho Universitário (CO), é profundamente antidemocrática, controlada por diretores de unidade e representantes de interesses privados, contra a vontade da maioria de estudantes, funcionários e até de boa parte do corpo docente.
Neste momento de ingresso na USP, fazemos um convite à reflexão e à ação sobre os rumos da universidade e sobre o direito ao trabalho e ao estudo de forma digna e com qualidade. Queremos estar ombro a ombro na defesa das pautas estudantis mais urgentes – permanência estudantil, ampliação de auxílios, moradia, transporte, combate às opressões, fim da repressão e da criminalização das lutas – e na defesa da autonomia do movimento estudantil e das entidades estudantis frente às iniciativas da Reitoria e dos governos de atacar a organização de estudantes e trabalhadores. Somente uma forte unidade entre as três categorias – funcionários, professores e estudantes – pode impor uma derrota ao projeto de privatização da universidade e transformar a USP em uma universidade verdadeiramente a serviço dos trabalhadores e do povo pobre.
Sejam bem‑vindes às lutas na USP e contem conosco!
Sintusp – Sindicato dos Trabalhadores da USP
