
https://marsemfim.com.br/a-saga-do-navio-oceanografico-prof-w-besnard-tera-final-feliz
Veja como a burocracia acadêmica trata nosso patrimônio e os trabalhadores marinheiros da Universidade de São Paulo.
O navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard chegou ao Brasil em 1967, vindo da Noruega, onde foi construído para o Instituto Oceanográfico (IO) da USP.
Durante 40 anos, foi considerado o mais importante laboratório flutuante do país.
Participou da 1ª Expedição Brasileira à Antártida, fundamental para a consolidação do Programa Antártico Brasileiro, implantado no continente gelado, inclusive com a construção da Estação brasileira Antártica Comandante Ferraz.
As pesquisas realizadas pelos pesquisadores, juntamente com a tripulação do Prof. W Besnard, foram importantíssimas para o entendimento das correntes marítimas que influenciam o clima do Brasil e para o conhecimento da plataforma continental do país.
Seus estudos levaram à descoberta de várias espécies de crustáceos e moluscos até então desconhecidos pela ciência.
Muitos estudiosos afirmam que a oceanografia moderna no Brasil começou com o navio Professor W. Besnard, seus pesquisadores e sua tripulação.
O Professor W. Besnard, os pesquisadores e a tripulação passaram por inúmeras situações adversas para cumprir sua missão de pesquisa, como por exemplo, ficaram presos por blocos de gelo na Antártida por diversas vezes.
Em 2008, após várias advertências feitas pela tripulação à universidade sobre a precariedade e a deterioração de todo o sistema elétrico, ocorreu um grande incêndio no navio, na Baía de Guanabara. Na ocasião, embarcações da Capitania dos Portos controlaram o incêndio e resgataram a tripulação.
Após esse episódio, as operações do Prof. W Besnard foram encerradas, e o navio foi levado ao Porto de Santos, sem condições de voltar a navegar e foi entregue ao Instituto do Mar (IMAR).
As discussões sobre o que fazer com o navio apontaram para a destinação mais óbvia: sua transformação em um Museu Oceanográfico Flutuante, resgatando a história de suas pesquisas não apenas para os estudantes, mas também para a população que sustenta e mantém a universidade. No entanto, isso não aconteceu.
O navio permaneceu no cais sem manutenção, abandonado, com infiltrações e ferrugem. Acabou sendo doado para a Prefeitura de Ilhabela, que decidiu realizar seu afundamento para transformá-lo em um ponto turístico de mergulho — algo que também não se concretizou.
Após quinze anos de abandono, no dia 13 de março de 2026, o navio afundou parcialmente, adernando e ficando inclinado no cais de Santos.
É importante lembrar que o abandono foi o destino de outro navio de pesquisa do Instituto Oceanográfico da USP: no ano passado, autoridades da universidade desativaram os dois últimos navios de pesquisa, o “Alpha Crucis” e o “Alpha Delphini”, demitindo sumariamente os 34 tripulantes trabalhadores da USP, sem indenização.
Isso nos levou, enquanto diretores do SINTUSP e da nossa central CSP-Conlutas, a ocupar os navios e procurar o Ministério Público, até que a USP pagasse as indenizações devidas, inclusive valores por danos morais aos tripulantes, entre os quais ex-tripulantes do navio Professor W. Besnard.
O navio “Alpha Crucis” também foi abandonado, enquanto o “Alpha Delphini” foi doado pela USP à Marinha.
Nosso sindicato manifesta aqui esta denúncia e o mais profundo repúdio à Reitoria da USP pela atitude inaceitável de descaso com o patrimônio público científico e cultural da Universidade de São Paulo, cuja existência depende dos impostos pagos pelos trabalhadores e por toda a população.
